Imagine duas empresas.
A primeira possui uma carteira com 6% de inadimplência.
A segunda registra 9%.
Qual delas está mais saudável?
A resposta correta é: depende.
Depende do segmento em que atuam, do perfil dos clientes, da idade da carteira, do momento econômico e, principalmente, do que é considerado normal para aquele mercado.
Esse é um dos erros mais comuns na gestão de recebíveis.
Muitas empresas acompanham seus próprios indicadores mês após mês, mas nunca se perguntam se aqueles números fazem sentido quando comparados ao restante do mercado.
Sem uma referência, qualquer análise passa a ser baseada em percepção.
E percepção nem sempre leva às melhores decisões.
O benchmark vem antes do diagnóstico
Antes de concluir que sua inadimplência está alta — ou baixa —, faça uma pergunta simples:
Com quem estou me comparando?
No mercado imobiliário, por exemplo, existe um dos indicadores mais consolidados do país: o Índice de Inadimplência Locatícia da Superlógica.
O levantamento é atualizado mensalmente, utiliza dados anonimizados de mais de 800 mil contratos e permite acompanhar a inadimplência por região, faixa de aluguel, tipo de imóvel e evolução histórica. Em vez de olhar apenas para a própria carteira, o gestor consegue entender como seu desempenho se posiciona em relação ao mercado.
Além dele, outras instituições também publicam dados relevantes para diferentes segmentos:
| Segmento | Fontes de referência | O que acompanhar |
|---|---|---|
| Mercado imobiliário | Superlógica, ABECIP, CBIC, Secovi | Inadimplência, crédito imobiliário, comportamento da carteira e indicadores do setor |
| Educação | ABMES, SEMESP, INEP | Evasão, rematrículas, inadimplência e sustentabilidade financeira das instituições |
| Crédito e financiamento | Banco Central, Serasa Experian, SPC Brasil | Endividamento, inadimplência de pessoas físicas e jurídicas e concessão de crédito |
| FIDCs | CVM, ANBIMA e relatórios gerenciais dos fundos | Performance da carteira, atrasos, perdas, provisões e recuperação |
O objetivo não é encontrar um número mágico.
É entender se a sua carteira está se comportando melhor, igual ou pior do que o mercado em que ela está inserida.
O benchmark não responde tudo
Agora imagine que uma incorporadora descubra que sua inadimplência é de 7%, enquanto a média do mercado está em 6%.
Isso significa que sua carteira está ruim?
Ainda não.
Esse dado é apenas o ponto de partida.
A análise começa quando surgem perguntas como:
- Essa diferença sempre existiu ou apareceu recentemente?
- A carteira está envelhecendo ou sendo renovada?
- O aumento está concentrado em poucos clientes ou distribuído por toda a carteira?
- Existem regiões, empreendimentos ou produtos puxando esse resultado?
- A inadimplência está crescendo ou estabilizando?
É nesse momento que o indicador deixa de ser apenas um número e passa a contar uma história.
O que gestores experientes observam
Na Avante, aprendemos que uma carteira saudável dificilmente é definida por um único indicador.
Ela é resultado da combinação entre contexto, tendência e capacidade de reação.
Por isso, toda análise deveria responder quatro perguntas:
1. Qual é o comportamento do meu mercado?
Antes de olhar para dentro, olhe para fora. Entenda quais são as referências do seu segmento.
2. Minha carteira está acima ou abaixo desse benchmark?
Comparar seus indicadores com o mercado ajuda a separar uma oscilação normal de um possível problema estrutural.
3. A tendência é de melhora ou deterioração?
Uma carteira com inadimplência ligeiramente acima da média, mas em trajetória de queda, pode ser mais saudável do que outra abaixo da média, porém em rápida deterioração.
4. Minha operação consegue agir antes que o problema aumente?
A qualidade de uma carteira não depende apenas do comportamento dos clientes, mas também da capacidade da operação de identificar riscos e agir no momento certo.
Conclusão
Existe uma tendência natural de analisar a carteira olhando apenas para os próprios números.
Mas números isolados raramente contam toda a história.
Antes de decidir que sua inadimplência está sob controle — ou fora de controle —, vale fazer uma comparação simples: como o mercado está se comportando?
A partir dessa resposta, os indicadores deixam de ser apenas relatórios e passam a orientar decisões.
Porque uma boa gestão de recebíveis não começa quando a inadimplência aumenta.
Ela começa quando a empresa entende o contexto em que sua carteira está inserida.




